O Cume da Montanha nos Espera
Rômulo Astaftos
O homossexualismo é um carma? Leve ou pesado? Como encará-lo da forma mais digna e sensata possível? Como não sofrer desnecessariamente diante desse problema? O homossexualismo é um infortúnio insuperável ou uma oportunidade valiosa de reparação moral para que reflitamos sobre nossas posturas e adotemos comportamentos mais sadios, especialmente quanta à sexualidade?
Todas essas dúvidas angustiam muita gente e são agravadas por uma sociedade extremamente preconceituosa que sufoca e desrespeita as minorias, inclusive e especialmente, sexuais. Ninguém é vítima por ser homossexual. Somos todos, em qualquer circunstância, vítimas de nossos próprios defeitos. E somente deles.
É verdade que não é fácil ser homossexual, como não o é também ser prostituta, pobre, idoso, criança de rua. Todos esses e outros segmentos sociais são semelhantes num aspecto: são violentamente discriminados por uma sociedade, formada por todos nós, em que o preconceito impera e é um valor cultivado às escondidas e rejeitado em público .
Ninguém admite ser preconceituoso, mas todos o somos, de uma forma ou de outra.
Como encarar a homossexualidade e saber, de cabeça erguida, que se pode enfrentá-la, sem autodesconsideração, fortalecendo, ao contrário, nossa auto-estima?
Houve uma época em minha vida em que sofri muito, muito, mas muito mesmo, por me saber e sentir homossexual. Minha formação é oriunda de uma família religiosa conservadora, rígida e equivocada. Se meus pais me passaram valores morais de excelente qualidade por um lado, não souberam, no outro extremo, entender que os tempos são outros e que cada ser humano é único. (Aliás, graças a Deus. A individualidade é uma bênção.)
Ele tem direito a viver sua vida do jeito que quiser ou puder, respeitados, é claro os limites da liberdade que o bom senso e o bem estar alheio impõem.
É difícil ser homossexual quando uma mãe diz, com todas as letras, que preferiria ver seu filho ser um ladrão a sabê-lo homossexual.
É por isso que, com todo o respeito à generosa e humana figura que me deu à luz, penso que o Dia das Mães existe muito mais para abarrotar as lojas de consumidores do que para homenagear uma pessoa em que a publicidade só encontra virtudes.
Foi muito difícil me aceitar homossexual, mas consegui fazê-lo, graças à psicoterapia e, por esse motivo, sou imensamente grato aos 15 ou 16 psicólogos que, desde 1976, passaram pelos meus dissabores.(Um beijo carinhoso às terapeutas Elisa Vieira e Ana Porto.)
Devo essa conquista também e muíto à Nossa Casa onde sempre encontrei, salvo em algum raro caso, compreensão, apoio, afeto e amizade.
(Nesse sentido, sublinho, com aplausos, os sentimentos fratemos de Nydia Correa da Silva e sua visão profundamente humanista da doutrina espírita.)
Hoje sou feliz e digo, com alegria : vivo comigo mesmo em lua-de-mel. E o que é melhor: em alguma bela e ensolarada praia do Nordeste. O ano todo.
O inverno dos conflitos deu lugar ao verão da segurança. O frio do desrespeito por mim mesmo cedeu espaço à primavera da auto-estima bem sólida, construía sobre a rocha da certeza de que ser homossexual não é demérito algum. É passagem de vida, é experiência a ser aproveitada para acionar dentro de si um movimento de crescimento, em todos os sentidos.
Como é bom gostar de si, respeitar - ser e encarar a vida como lição profunda de evolução e não mais se pisar, se desrespeitar, se agredir e ferir só por não ser igual aos outros, à maioria.
O homossexual não sofre apenas por estar limitado a não poder expressar livremente seus sentimentos. Não é possível para ele sair às ruas de mãos dadas com a pessoa amada, beijar em público, namorar descontraidamente e flertar sem se ter que disfarçar um comportamento que, para ele, faz parte de sua natureza.
Sábia é a opinião de um homossexual, freqüentador da Nossa Casa, para quem não SOMOS, mas ESTAMOS homossexuais. Esta é uma passagem para uma vida melhor, se a lição for bem assimilada.
Não há, em absoluto, opção sexual quando o assunto é a homossexualídade. Ninguém, a não ser os masoquistas, escolhe o sofrimento como se fosse um prazer. Ser homossexual é uma orientação sexual e jamais uma opção, a não ser que se considere que se escolha esse caminho, antes da volta à came, para reparar erros sob o peso de um carma bem doloroso.
Ou é fácil aceitar o fato de que se o homossexual não faz alarde de sua sexualidade, por ser reservado, naturalmente discreto, é chamado de ENRUSTIDO? Se a expõe livremente, usando roupas e esboçando gestos extravagantes, denunciando sua preferência pelo mesmo sexo, passa a ser agredido, desrespeitosamente, com expressões pejorativas e maldosas como BICHONA, BICHA, VEADO e outras ainda mais ferinas.
Com a fronte voltada ao horizonte, mantendo sua dignidade, o homossexual segue seu caminho, aprendendo a vencer a solidão, sua grande angústia, e mostrando que ser homossexual não torna ninguém anjo, mas, em compensação, não o leva a ser um ente das trevas.
Há muitos homossexuais que são exemplos de seres humanos, como cidadãos. Se ser homossexual fosse algo tão deplorável e recriminador,não haveria tantos líderes espíritas - e em todos os outros credos religiosos - , de renome nacional e até internacional, cujas tendências sexuais fogem ao padrão masculino tradicional
É bom que os pais tomem consciência de uma verdade : se seu fílho ou fílha é homossexual, respeite-os como seres humanos e herdeiros do seu sangue. Compreenda-os e aceite-os, como são. Eles são fílhos de Deus e têm o direito à liberdade e à felicidade tanto quanto os que os agridem e os discriminam, sutilmente ou não.
Se orientação sexual fosse passaporte para a sabedoria, o coração generoso, a inteligência e a busca de uma profunda espiritualidade, é certo que só haveria heterossexuais de invejável estatura moral e, aliás, nem mais estariam na Terra, tão evoluídos que já se encontrariam. A realidade, como se sabe, é outra. Há homossexuais e heterossexuais que são grandes figuras humanas, dignas do maior respeito, e há também outros que demorarão ainda um bom tempo para superar suas grandes limitações morais.
Se, por acaso, és homossexual, ama-te, respeita-te e aceita-te, apesar dos preconceitos e agressões sociais. E busca na espiritualidade, racional e carinhosamente desenvolvida, não uma fuga, mas um caminho para te superares.
Vencendo tuas limitações humanas e espirituais, notarás que as pessoas te verão com outros olhos e nem considerarão que teus interesses da libido não combinam com os delas.
Ser MAIS GENTE é muito mais importante que ficar se preocupando com o que esse ou aquela faz ou deixa de praticar na cama. Tais especulações, independentemente de sua orientação sexual, pertencem aos medíocres e insensatos, àqueles que, ao contrário do pássaro, buscam o caminho de rastejar, aspirando o pó, esquecendo que o cume da montanha está lá, à nossa espera.
Rômulo Astartos
Porto Alegre, agosto de 1997.
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