O Teu Telhado é de Aço?


Os presos têm perfil? Como são eles? São semelhantes a nós, cidadãos, que vivemos longe das celas? À primeira vista, tais perguntas podem parecer pueris, mas, diante da realidade social, não o são. Há muitas pessoas que vêm os presos como seres que jamais deveriam merecer qualquer perdão da sociedade. Seu lugar ideal deveriam ser as masmorras, parecidas com as prisões da Idade Média. E, no fundo, as masmorras continuam existindo e resistindo a todas as formas de evoluirmos quanto ao respeito à dignidade humana.

Frente aos crimes, alguns hediondos, a sociedade veste máscaras e dança, frenética, no Camaval da hipocrisia. A mesma sociedade que nega tudo ao pobre, impedindo-o, na maior parte das vezes, de ter acesso ao emprego, à educação, à saúde, à moradia, à alimentação e ao lazer sadios é a mesma sociedade que se faz de verdugo para punir aqueles que são excluídos, de maneira cruel, do meío social, dos recursos mais comezinhos de acesso a uma vida digna e humana.

Nada justifica crime algum, é claro, mas é de se questionar o que nós, seres humanos, estamos fazendo para evitar que eles aconteçam. A sociedade, formada e sustentada por nós, cidadãos, discrimina imensos contingentes humanos, sutilmente ou não, mas sabe muito bem se resguardar, como autodefesa, confinando os que transgridem as leis em celas, construíras do concreto da indiferença, do egoísmo, do preconceito, do desprezo social.

Têm razão aqueles que dizem que há escassez de uma política penitenciária. E que também há um vácuo quanto às políticas habitacional, agrária, educacional, de saúde, cultural, social e por aí vai o nosso desatino. A falta de uma política penitenciária é o reflexo da inexistência das outras políticas. Se houvesse a fixação, clara e objetiva, dessas políticas todas, com lucidez e transparência, é certo que o Estado não gastaria tantos e tantos milhões de reais para erguer presídios e montar esquemas poderosos de segregação, de repressão, de negação da condição humana.

É verdade, indiscutível verdade, que preso algum deve ser encarado como santo. Aliás, quem de nós é santo? Quem não erra na vida? Justo seria que todos tivessem direito às mesmas oportunidades, garantidas, na prática, pelas instituições. Como a realidade é outra, resta dízer àqueles que vivem distantes do seu dia-a dia que o perfil dos presos é de gente como nós. Eles têm famílias, angústias, alegrias, dissabores, esperanças e crenças semelhantes a de quaisquer outras pessoas.

É preciso vê-los como gente. Não se deve aprovar seus crimes, mas não se deve também negar sua condição humana. Discriminá-los, desprezá-los e vê-los sob os olhos do preconceito só agrava o problema, só amplia o fosso entre a sociedade e aqueles que são vítimas e réus dos próprios erros. Telhados de vidro cobrem todas as nossas casas. Ninguém víve sob tetos de aço. Logo, julgar, sem o mínimo de respeito à dignidade humana, é atitude coerente de quem se supõe superior àqueles que caíram em deslizes. E cá entre nós: que falsa superioridade é esta que alimenta preconceitos, nutre desdém e investe contra as lutas, individuais e coletivas, que visam à elevação do bem-estar das multidões e dos indivíduos?

Não te esqueças de que as pedras que jogares no telhado do teu vizinho poderão repícar e estilhaçar teu teto, feito, sim, de um tenro vídro, que não consegue esconder teus intestinos.

Roberto Antunes Fleck
Porto Alegre, l0 de julho de 1997.

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